Retrospectiva – Call of Duty: Black Ops (ou porquê detesto shooters militares)

Call of Duty: Black Ops 2 é o jogo mais pré-vendido da história. Em um único dia, houve maior número de pré-vendas do que os totais de vendagem de seu predecessor, e considerando que este vendeu 13,7 milhões de cópias apenas nos Estados Unidos, é um número bem bruto. Portanto, como “homenagem”, resolvi fazer um post explicando por que Call of Duty: Black Ops me fez perder toda a vontade de jogar esse tipo de game.

Vê, hoje em dia meu desdém por shooters militares é bem conhecido, mas houve uma época em que eu adorava a série Call of Duty. Houve uma época em que COD era despretensioso, uma série de missões em plena Segunda Guerra Mundial e que não tinham nenhuma história. Ia pulando entre as frentes de batalha, e nos ajudava a entender como era um pouco da luta pela perspectiva de cada um dos lados aliados: Americanos, Britânicos e Soviéticos. Mesmo naquela época, COD era ainda extremamente linear, como é hoje, mas o tema da Segunda Guerra Mundial, as armas autênticas e a variedade de missões segurava bem o jogo. Não era brilhante, mas não precisava ser.

Então veio Call of Duty 4: Modern Warfare, em 2007, e tudo mudou. Foi uma tentativa de algo diferente, trazendo a ação que caracterizava a franquia para os tempos modernos. E construiu uma história que, apesar de clichê (terroristas islâmicos apoiados por um vilão russo megalomaníaco, é, nem nunca vi isso antes não, *tosse*) foi muito bem construída e muito bem ritmada, além de ter um verdadeiro momento surpreendente com a explosão de uma bomba nuclear numa cidade do Oriente Médio resultando na morte de um dos seus personagens jogáveis. Seu modo multiplayer também foi uma revolução, que trazia elementos de RPG com um sistema de armas e itens que iam sendo destrancados conforme o desempenho do jogador nas partidas, que era balanceado e divertido. Permanece até hoje como meu favorito da série, porém, ele também marcou o começo do fim.

World at War transformou Call of Duty numa franquia de duas empresas: um game por ano, alternando entre a série moderna com a Infinity Ward e a volta à Segunda Guerra Mundial com a Treyarch. Foi um game também muito bom, o meu favorito na WWII, mas era apenas o Modern Warfare em roupagem mais antiga. As expectativas estavam na continuação da roupagem moderna. E quando ela veio, senti algo diferente.

O “momento chocante” de Modern Warfare 2 colocava o jogador no papel de um agente duplo infiltrado durante um ataque terrorista de um grupo russo num aeroporto na Rússia, no qual você tinha que matar civis russos para manter seu disfarce. E causou controvérsia, claro. Mas não de uma maneira legal. O fato é que a morte de um dos protagonistas na história do primeiro game era uma virada de eventos que tornava interessante o restante do game, mas aqui, a cena controversa praticamente cria toda a história do game e, pior, não faz sentido. Também parecia que a Infinity Ward não acreditou no sucesso que seu game fez por causa do momento chocante, então resolveu matar personagens jogáveis mais ou menos a cada três missões, transformando o chocante em algo corriqueiro. Isso sem contar a total falta de justaposição, com missões estilo 007 com snowmobiles pulando precipícios na neve, e a ação nunca para por um segundo. Então, mesmo eu me divertindo com Modern Warfare 2, deu pra perceber que as coisas estavam mudando para pior. E Black Ops confirmou todas as minhas terríveis suspeitas.

A Treyarch resolveu abandonar a Segunda Guerra Mundial e criar uma nova história, uma que acompanha o herói de ação genérico número 2916, Alex Mason, feito por ninguém menos que Sam Worthington, o ator que só faz herói de ação genérico, em alta depois do Avatar. Mas tinha um certo potencial, acompanhando vários períodos da história dos Estados Unidos, incluindo a guerra do Vietnã, pelos olhos desse personagem.

Amarrado a uma cadeira, Mason é interrogado por um personagem misterioso sobre números que não saíam de sua cabeça, e essa premissa leva nosso herói a uma série de flashbacks em suas missões passadas para tentar descobrir o que são esses números. Tinha certo potencial interessante, poderia até ser mais legal que a de Modern Warfare. Mas então comecei a jogar.

E fui realizando cada um dos erros terríveis que Modern Warfare 2 me sinalizou. Peraí, essa é a mesma engine que é usada desde o primeiro game. Então as texturas são até meio borradas e as sombras são feitas de uns quadrados horríveis. Aliás, por que está rodando tão mal? Na época de seu lançamento, meu computador era um Core 2 Duo com uma GTX 460, que conseguia rodar a maior parte dos games, e ainda assim COD Black Ops tinha sérios problemas de travamento e de taxa de quadros instável. Ahhh, mas no console ele roda a 60 frames. No console. Então que se dane a otimização para PC né, no console vai vender mais. (Atualmente já consigo jogar o game sem maiores problemas, com uma configuração muito mais potente do que a antiga, o que ainda não justifica o desempenho horrível numa máquina que, mesmo que ficando um pouco datada, ainda era potente.)

Logo na primeira missão, outro sintoma. O jogo já começa com você e um lança-granadas explodindo carros de polícia em Cuba. Você sai correndo e entra em um carro. Um prompt aparece. “Segure o botão direito do mouse para dirigir”. Você segura, e seu personagem dá ré no carro e passa por cima de um policial, depois batendo numa parede. “Segure o botão esquerdo do mouse para dirigir”. Você segura, e então seu personagem engata o carro e sai correndo enquanto é metralhado por vários policiais. Seu personagem fez tudo durante essa sequência sozinho. Segurar ou botão do mouse ou apenas dar um cliquezinho, não faz diferença. O jogo tira o controle de você.

E isso acontece múltiplas vezes. Toda vez que você chegar perto de um muro baixo, você vai ver um “Press Space to Jump”, como se o público-alvo fosse estúpido e não fosse lembrar os controles, mesmo depois da sexta missão. Ou da décima segunda. Em algumas missões, você pode pilotar um helicóptero. Você nem pode controlar a altitude do mesmo, ela é ajustada automaticamente pelo jogo conforme a sua posição. Você não pode bater, e o céu é feito de paredes invisíveis. Na última missão, seu personagem nada sozinho por mais de 500 metros sem nenhuma ação do jogador. Qualquer tentativa de não seguir aquele pontinho no seu compasso que marca seu próximo objetivo é punido por algum soldado aparecendo do nada e te matando com um tiro.

Esse game não foi feito para ser jogado, para se experimentar, para se criar algum tipo de estratégia. Ele trata os jogadores como grandes consumidores que são, que só querem ver explosões e mais nada. E isso Black Ops tem. O jogo não para quieto por um segundo. Se mais de 30 segundos se passam enquanto você joga Black Ops sem você ouvir nenhum tiro ou explosão, é um recorde. O primeiro Modern Warfare tinha missões de reconhecimento e espionagem, que davam variedade aos procedimentos, e como justaposição, é um jogo onde uma merda de uma bomba nuclear explode na sua cara. Black Ops não tem justaposição, é uma sessão de ação ininterrupta por 5 horas. Isso diminui ainda mais a história do game, que mesmo com a atuação muito bacana de Gary Oldman como o soldado russo Viktor Reznov, não se torna memorável, pois passa tão rápido e tem tão pouca noção de ritmo que você joga por ela num transe, sem ao menos poder focar sua atenção nela. Ao chegar ao fim, fica até difícil lembrar-se das primeiras missões.

E parando pra pensar nisso, eu comecei a ver que as outras franquias também sofrem do mesmo problema. E de fato, qualquer game que passou a buscar maior público e maior vendagem também se tornou mais simples e menos interessante. Battlefield se transformou em um game que não permite nem que você use os flancos para atacar um inimigo desatento, porque “você está saindo da área de combate”. Em Medal of Honor, um soldado inimigo está prestes a jogar uma garrafa de vodka numa fogueira para fazer fumaça e alertar o restante dos soldados nos arredores, mas você não consegue matar ele até que ele jogue a garrafa, não importando quantos tiros você acertar na cara dele. A fórmula de maiores vendas se tornou o padrão, a simplificação, a montanha russa que é uma galeria de tiro composta de patos em formato de nazistas e soldados russos.

Claro que os mais xiitas dentre os gamers virão me xingar. “Mas COD é feito primariamente pelo seu modo multiplayer online!” Pode até ser o caso, mas existem pessoas que, como eu, detestam qualquer coisa em multiplayer. O motivo disso pode ser discutido em outro post, mas mesmo se eu gostasse, é necessário ficar lançando um jogo multiplayer novo todo ano? E pior, multiplayer é basicamente igual desde o primeiro Modern Warfare, então, pra quê?

Então, não, não estou ansioso por Black Ops 2, e certamente não estou ansioso para saber que os jogadores irão, novamente, confirmar que são idiotas e que querem jogos emburrecidos através da compra de milhões de cópias de mais um shooter militar genérico. COD precisa de algo novo, e quando esse algo novo for interessante, eu volto a me interessar mais.

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